Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Pequeno Ensaio sobre a Prepotência

 As pessoas às vezes espantam-me. Isto talvez seja por eu já ter passado o meio século, porque a minha educação foi mesmo muito diferente daquelas de algumas pessoas com quem me cruzo no dia a dia, os ditos rapazes e raparigas dos meus tempos.

Se há coisa que realmente me chateia é ouvir as pessoas embirrar com as outras por dá cá aquela palha. Somos humanos, erramos é certo, mas também se podia pensar um bocadinho antes de partir para o insulto, com base em ideias preconcebidas. Ou seja, há muito boa gente que mata e depois pergunta. Um bom ouvinte é algo cada vez mais raro nos dias que passam, mas depois há aqueles que, ao ouvirem os desabafos de alguém a quem aconteceu uma desgraça física, emocional, a morte de um parente, a ida para o desemprego, ficam muito pesarosos e dizem com a mão do ombro do desgraçado "eu sei o que isso é" sem nunca terem tido o azar de passar por aquela situação. São bem intencionados, eu sei, mas...

Todos os dias me acontece topar com uma pessoa destas, não porque ande por aí a desabafar, mas ando por aí com algo a menos que a grande maioria das pessoas: a visão. Se alguém está ou se me chega do meu lado esquerdo, simplesmente não os vejo. Nós não andamos em linhas perfeitamente rectas, e eu tenho que andar com a maior das cautelas porque não vejo as saliências dos passeios, por exemplo, não me apercebo bem da profundidade de um degrau, ou se um buraco no pavimento é fundo ou não, para mim, é tudo ao mesmo nível, daí andar devagar.

Ontem, ía eu no meu passo pausado para o transporte habitual, quando me apercebo de alguém a ultrapassar-me pela esquerda e então desviei-me um pouco mas não o suficiente para levar com um volumoso trolley de viagem nas pernas. Assustei-me um pouco e olhei para a pessoa só para ver a sua cara de reprovação como quem diz "olha só a desastrada, não via a mala aqui?..." No outro dia foi ao pequeno almoço, não vi o cavalheiro que tinha um bolo cheio de açúcar em pó e estava de pé a comer junto a mim, sem querer dei-lhe uma cotovelada e...nevou no casaco do senhor. Enquanto se sacudia ia dizendo para que eu tivesse mais cuidado com aquilo que estava a fazer, e outras coisas que agora não interessam mas que fizeram as meninas do bar olhar para ele com reprovação.

E ponho-me a pensar se será preciso responder sempre "desculpe, mas sou cega do olho esquerdo!". E como penso que não preciso de nenhum post-it na testa a informar da ocorrência, vou ouvindo a intolerância da boca pra fora de muito boa gente.

Ter uma deficiência é triste, pior é quando ela não é tão evidente. Mas deu-me experiência de vida, porque agora já posso dizer "eu sei o que isso é" quando alguém me contar alguma peripécia como estas, ou como aquela em que entra velhota no autocarro, apinhado de gente, dirige-se à primeira pessoa sentada nos reservados e pede autoritariamente que se levante para ela se sentar "porque sou idosa e não posso estar de pé"; ao que prontamente a senhora mais jovem, de olhar sereno acedeu, levantando-se.

E foi em pé, com um sorriso triste nos lábios e os olhos a brilhar agarrada ao varão até sair do autocarro, calmamente com uma bengala prateada que entretanto retirara da mochila e só desenrolou quando já estava no passeio.

 


publicado por Nanda Costa às 08:15

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8 comentários:
De Leda a 5 de Fevereiro de 2010 às 10:54
Só é pena que os cavalheiros e cavalheiras que se apressam a julgam os outros com tanta prontidão, não venham aqui ler este relato.


De Nanda Costa a 5 de Fevereiro de 2010 às 13:23
Esta cena passou-se há muito tempo, ainda eu andava na faculdade. A jovem cega deu uma grande lição de dignidade à velhota, que ao vê-la puxar da bengala, imediatamente baixou os olhos para a renda que ía fazer. Eu ía de pé no corredor, perto da porta, por isso vi bem o olhar envergonhado da madama, deve ter corado mas isso já não sei, porque o rosto estava coberto de pó de arroz.


De José Manuel Costa a 8 de Fevereiro de 2010 às 12:27
Nanda , nos mais de 20 anos de jornalista que levo raramente me surpreendo com nacos de prosa mais ou menos compostos, ou mais ou menos sumarentos. Quanto ao texto que acabo de ler, devo confessar que não fiquei surpreendido com o guião desta história, afinal comum a tantas outras de incompreensão, estupidez e falta de tacto usual neste nobre povo. A incapacidade de perdoar ou de simplesmente encolher os ombros perante uma cabulice alheia ou de uma chica espertice " no meio do atulhado trânsito das urbes lusitanas, leva a essas discussões e subidas de adrenalina que se prolongam depois para os mais próximos em troca de opiniões acalorada por tudo e por nada.
Tudo isto para lhe dizer que gostei muito do naco de prosa que criou, com a qualidade demonstrada e com a serenidade da observação a uma situação quotidiana que a maioria de nós já se cansou de combater.
Os meus parabéns e, já agora, parabéns pela sua bela idade - para lá caminho a passos largos - e pela pureza e liberdade de espírito, recusando o estereótipo da mulher "meia idade" atulhada em insegurança e falta de auto-estima.
Parabéns e um beijo


De Nanda Costa a 8 de Fevereiro de 2010 às 12:52
Amigo Zé Manel, agradeço-te a tua visita a esta minha nova casa. Fui quase "obrigada" a voltar a escrever a pedido de várias famílias e confesso que estou bastante enferrujada. As tuas palavras, e daquelas que por cá já passaram, dão-me o alento para continuar a escrever. Para inaugurar as estórias do dia a dia, decidi contar o que se passa comigo quase diariamente: será ncessário andar constantemente a pedir desculpa e dizer que o meu olho esquerdo é cego só para não ser olhada como desastrada, maluca, atarantada, distraída...? Todos me dizem que me devia reformar, mas nunca ninguém me daria a reforma porque precisamente "aparentemente" nada tenho. E mais não digo. Só obrigado, mais uma vez, por teres passado por cá.
Um beijinho.


De dragaobranco a 7 de Fevereiro de 2010 às 01:19
não me parece que uma pessoa por ser cega precise de ir sentada no autocarro. a cegueira não é nas pernas e naquele caso acho que a senhora de idade estaria cheia de razão mesmo que soubesse da cegueira da moça.
acho que as pessoas incapacitadas devem ter atendimentos prioritários e especiais mas não as vamos meter todas no mesmo saco. um cego pode esperar no fila o mesmo já não acontece com um perneta, né?
no entanto, e no geral, Nanda, acho que tens muita razão e as pessoas muitas vezes partem logo para o insulto sem saberem muitas vezes porque o fazem.
beijinhos


De Nanda Costa a 8 de Fevereiro de 2010 às 12:58
Luisito, amanhã estarás de regresso a Portugal depois de umas curtas férias em terras argentinas. Agradeço-te que, mesmo longe, tenhas vindo cá dar a tua opinião. Desta vez discordo, sabes? Porque aquelas chapinhas nos lugares reservados dizem também, como sabes, que são para os cegos. O que mais me chocou na cena que relatei foi o autoritarismo da velhota, a jovem cega não quis entrar em confronto e como conhecia bem o sítio onde estava não teve dificuldade em orientar-se. Há velhos e velhos, porque já vi muitas avós dos chás da Suíça a reclamarem passarem à frente nas filas e a atirarem-se para os reservados ou para o primeiro lugar vago muitas vezes afastando a pessoa que se está a sentar. É triste, mas acontece demasiadas vezes. Fui educada a respeitar os velhos, mas não o faço a quem não me respeita. Seja velho, seja novo.
Muitos beijinhos e têm um óptimo regresso, amigo!


De * * Grilinha * * a 7 de Fevereiro de 2010 às 02:06
Nanda já pensei pedir um daqueles disticos de deficiente para trazer pendurado ao pescoço.

Já lá vai o tempo em que me justificava com os sons (estranhos eu sei) do meu instetino a funcionar para o saquinho).
Agora nem dou conversa a não ser que oiça comentário e aí já pensei fazer como diz o Tó. (puxas as calças e mostras o saco que fogem todos e ficas à frente na fila).

Cada vez se fala mais em direitos de incapacitados mas cada vez mais as pessoas respeitam menos o próximo.

Eu reclamo sempre que tenho direito e não reclamo mais porque às vezes as forças são poucas para me manter em pé.


De Nanda Costa a 8 de Fevereiro de 2010 às 13:01
Deste-me uma boa ideia: um dístico. Ao menos arranja um que fosse flurescente para que me vissem bem de noite. É triste, amiga, estar constantemente a olhar para trás para ver se alguém vem da minha esquerda, já para me afastar de modo a que passe sem que eu esbarre com elas. E um retrovisor? E uma sineta, como tinham os leprosos?
beijocas!


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